29 de janeiro de 2016

Texto I: Meras ilusões

Imagem da web

1º dia/noite:

Estávamos todos dentro de um ônibus, da cor azul meia-noite, sem janelas e portas, que subitamente estava viajando sem rumo. Não sabíamos onde, como e quando fomos parar lá. Só sabíamos que a cada curva que era feita, tentávamos nos segurar, mesmo que aparentemente nessa realidade, ele estivesse parado no tempo e espaço dessa dimensão. Conversávamos tranquilamente quando ela apareceu. Media um metro e sessenta, com seus cabelos e olhos castanho-escuros. Vestia-se com roupas das quais, eu não soube identificar, pela pouca luminosidade. Estava quieta de cabeça baixa quando resolveu se acolher num canto vazio do ônibus. Ela agia e se comunicava de uma maneira diferente, mas fomos todos contagiados de imediato, como se fôssemos enfeitiçados por alguma magia criptografada. Uma outra pessoa, de aparência fosca, pálida e alta, fez-se de ponte entre ela e nós, para traduzir o que era dito enquanto a acolhíamos em nossa deliciosa conversa.

Tudo corria bem, gargalhávamos e a conversa correu aos longos assuntos inimagináveis que até então, agradara a todos naquele momento. Inconsequentemente aquela menina surpreendente, começou a se debruçar e em pouco tempo caiu desfalecida. Momentaneamente todos souberam de mais dois casos referentes à essa mesma morte, que sem explicações, aconteceram minutos antes. Eles estavam no outro canto do ônibus - escuro e solitário. Contudo, não conseguimos entender os motivos daquelas mortes acontecerem. Apenas estavam lá. Corpos expostos. Sonhos perdidos. Em meio a tanta incompreensão.

Como numa sublime magia que não poderia responder as nossas perguntas, a menina transformou-se numa boneca. Deixando de lado, um corpo pálido e gélido que a prendia. Uma boneca pequena, com roupas e sapatos ciano claro, cabelos e olhos pretos e corpo bege. Assistindo as cenas, eu vi todos que estavam no ônibus, do lado de fora dele e dentre eles, algumas pessoas que tentavam decidir onde colocariam os três corpos. Mesmo que a menina agora fosse uma boneca, para muitos, era uma pessoa que acabara de morrer, então, deveria ser enterrada como qualquer outro falecido, pois, apesar da transformação, o seu corpo antigo permanecia ali. Visível e indiscutível.

"Poderíamos colocar eles dentro do ônibus e depois levá-los às suas cidades de origem." Surgia uma voz na multidão, difícil de identificar e ver a sua origem. Após muita discussão, o cenário mudou completamente sem que se pudesse perceber. Quando conseguimos ver alguma luz, todos estávamos em meio a um labirinto grande, cinzento e feio. Não conseguimos sentir fome, frio ou qualquer outra sensação de que um corpo necessite. No meu caso, meu consciente só emitia medo, calafrios e pedia socorro. Diante de tudo disso, a família da menina apareceu, porém, a nega dizendo não ter conhecimento dela. Então, eu, estremecendo de medo, pego-me atirando a boneca rio abaixo e vendo o quão longe ela realmente tinha ido. Era o que eu mais desejava.

Todos ignoraram as mortes e imediatamente começaram a caminhar pelo labirinto. Acompanhando-os solitariamente, me vi com a boneca que, de repente, apareceu nas minhas mãos. Ela tentava mostrar a eles algo que nem eu mesmo conseguia entender. Até que chegamos no fim da trilha. Um fim horrível e cruel. Onde cada um daqueles viajantes vazios, desapareciam sem mais demoras. Eram sugados para os mais surreais abismos obscuros transcendendo as dimensões ali existentes. Vi da maneira mais borrada possível, a boneca fazendo um pacto com o demônio, mas ele estava num corpo humano. Difícil de ver sua feição. Haviam apenas faíscas de desesperos submergindo do solo ao redor dele. Foi nessa hora que fui impulsionada pelo extenso terror, a voltar rapidamente pelo labirinto até chegar no ponto inicial.

Todas aquelas cenas; aquele lugar sombrio depois de um labirinto cruel sem escolhas e o sumiço daquelas pessoas, não saiam da minha cabeça. Neste instante, pude virtualizar na mente a boneca - que no princípio parecia inofensiva e amável antes da transformação - matando um a um. Cada mundo recheado de momentos sutis; cada sonho; cada pétala de rosa minuciosamente desenhada à mão, desaparecendo sem qualquer motivo. Simplesmente se foram. Varridos pelos espaços vazios de escolhas não nascidas. Outras pessoas, surgiam e se posicionavam ao lado de cada um antes de serem devorados. Apenas se perguntavam o que estava acontecendo com aquelas almas; com aquelas ilusões; com aquelas vidas.

3 comentários:

  1. Respostas
    1. Bastante surreal rs. Fico feliz que tenha gostado E.P. Gheramer :)

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  2. Menina que loucura!!!
    Continue, faça um livro.
    A história promete.
    Parabéns!!!

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